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24 de dez de 2013

Os blogs e o futuro da igreja brasileira - Vinícius M. Pimentel

PONTOS QUE DEVEMOS CELEBRAR
Edmund Burke, famoso político conservador inglês, já havia dito que “para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”. Os blogs,2 como plataformas virtuais, têm fornecido um palanque para a verdade, a qual tem poder para libertar os homens do engano do pecado e da sua escravidão (Jo 8:32). Os benefícios à igreja brasileira estão intimamente ligados ao conteúdo transmitido, cuja reverberação é potencializada pelo amplo alcance da mídia digital. Quero destacar três benefícios em particular: a disseminação do evangelho, a aldeia cristã global e as implicações positivas deste canal de comunicação na vida pastoral.

DISSEMINAÇÃO DO EVANGELHO
Um dos principais benefícios que os (bons) blogs proporcionaram à coluna e firmeza da verdade (1Tm 3:15) foi proclamar a verdade do evangelho. Isso pode parecer estranho, afinal é a casa do Deus vivo que deveria exercer tal papel. Contudo, se observarmos o ministério de Paulo e daqueles chamados a serem pastores e mestres, compreenderemos que há indivíduos que ensinam a verdade à Igreja para que a mesma seja uma comunicação veraz de Deus.


Paulo, por causa das heresias e dos erros doutrinários difundidos na igreja primitiva, se valeu do meio escrito (assim como aconselhou outros a fazerem presencialmente) para pregar a palavra, repreender, corrigir e exortar com toda a paciência e doutrina (2Tm 4:2). Temos o registro de 13 dessas cartas, sendo que possivelmente outras foram escritas.

Da mesma forma, observa-se que Deus, em sua graça, tem se valido desta plataforma virtual do século XXI para fazer avançar o conhecimento do Evangelho (Cl 1:6). Muitos têm encontrado alimento espiritual sadio, diversificado e sólido que não obtiveram dos púlpitos fracos sob os quais estiveram – púlpitos estes ocupados por pastores despreparados, que deixaram de anunciar todo o conselho de Deus (At 20:27), ou até mesmo por lobos disfarçados.

Inclusive, a existência de blogs apologéticos tem servido para alertar muitos sobre falsos mestres com os quais, antes, muitos crentes compactuavam. A velocidade de resposta, o baixo custo e a liberdade de expressão deste veículo tornaram o braço da Igreja que carrega a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6:17), melhor treinado para o combate da fé, derrubando fortalezas, argumentos e pretensões que continuamente se levantam contra o conhecimento de Deus e levando todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2Co 10:4). Os ricos e midiáticos lobos são agora contra-atacados de forma significativa, ao ponto de ficarem manifestamente incomodados com a existência destes pequenos redutos digitais. Quão glorioso é o Deus que derrota o gigante Golias através do pequeno Davi!

Não são poucos os testemunhos que recebo de pessoas que foram transformadas pelo conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2Co 4:6), através deste instrumento virtual. Sendo assim, mesmo que possamos enumerar pontos negativos (o que farei em seguida), o brilho desta graça resplandece sobre todos. Deus já fez isso na história através de outros meios de comunicação. Não foi através da palavra escrita de Agostinho que Deus despertou Lutero para a gratuidade da graça? Quanto da Reforma Protestante não se deve à providência divina através da invenção da imprensa, por Gutenberg? O próprio Lutero chegou ao ponto de afirmar que a invenção da imprensa foi “a maior graça de Deus na expansão do evangelho”. Podemos concluir o mesmo da internet. Não que este fim justifique o uso do meio em questão, mas devemos glorificar ao Deus que usa instrumentos imperfeitos para a sua glória e a salvação dos homens.

Certamente, esta não é a situação ideal, mas da mesma forma não o era no período apostólico. É uma forma de tapar o sol com peneira? Talvez. Mas graças a Deus por nos fornecer esta pequena sombra! Quem sabe não seja uma situação correspondente à construção do templo na época de Esdras? Hoje, os jovens se alegram com a edificação da verdade do evangelho através dos tijolos virtuais, enquanto os antigos choram ao se lembrar da época em que muitos pastores, pelo menos, expunham fielmente a Palavra de Deus.

Ademais, não podemos negar os efeitos em cascata que um correto entendimento do evangelho e da sã doutrina em geral produz na igreja local. Uma pessoa a mais que abraça a ortodoxia é uma pessoa a menos envolta nos perigos do engano. Um cristão a mais, empolgado com as boas novas, deveria ser um reclamante a menos (Hb 13:17).

Esta certamente não é uma matemática exata. Há fatores negativos, como dupla personalidade (digital/real), “ortodoxia morta” e outros; mas, de forma geral, penso que esse serviço da blogosfera resultará em maior envolvimento na vida comunitária, em membros que desejarão transmitir as gloriosas verdades que receberam para seus irmãos e, sendo otimista, em menos igrejas doentes, à medida que membros mais saudáveis exigirão pastores saudáveis. Aliás, constatamos que parte dos “alcançados pelos blogs” está entrando em seminários, com o propósito de mudar o cenário atual de nossa nação. Quem sabe não haverá mais pastores fiéis na próxima geração, por causa dessa pequena semente plantada por bits e bytes? E quem sabe se estes pastores, quando mais experientes, não se tornarão professores de seminários, influenciando inclusive este reduto de formação intelectual?

Otimista demais? Talvez. Contudo, conheço alguns que representam justamente o que acabei de escrever. Não que eles sejam a salvação do evangelicalismo brasileiro (lembremos que o herói Blogue não existe e que há muito para ser feito nas igrejas locais neste vasto território nacional), no entanto, pelos efeitos que tenho visto atualmente, tanto no Brasil como nos EUA, onde a blogosfera é bem mais desenvolvida, creio que posso manter viva certa chama de esperança. Oremos para que Deus traga o crescimento àquilo que os blogs plantaram e que outros regarão.

ALDEIA CRISTÃ GLOBAL
Outro benefício dos blogs e da internet como um todo à igreja brasileira é a interação entre pessoas distintas, rompendo barreiras denominacionais, geográficas e culturais. Essa maior interação entre a Igreja Visível,3 presente no mundo, poderá contribuir para reduzir obstáculos na ajuda mútua em prol do Reino de Deus. Um exemplo, e espero que o Brasil considere-o atentamente, é o The Gospel Coalition (A Coalizão do Evangelho)4, uma coligação de líderes e pastores nos Estados Unidos de diferentes denominações sob a bandeira do evangelho e uma confissão abrangente em prol da causa do Evangelho. Similarmente, outras ações conjuntas são beneficiadas, como trabalhos missionários e aqueles em prol dos cristãos perseguidos.

Além disso, pela natureza inerentemente colaborativa deste meio de comunicação (afinal, não existe uma “livrosfera”, mas existe uma blogosfera), membros de uma tradição cristã podem conhecer outras vertentes e entrar em debates edificantes (ao menos, idealmente). A Escritura testemunha que Deus capacitou a igreja com diferentes dons para “que alcancemos a unidade da fé” (Ef 4:11-13), e apesar de a história dar um outro testemunho sobre a dificuldade desse processo, certamente o debate saudável promovido pelos blogs facilitará o provérbio que diz: “assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro (Pv 27:17).

Todos estes fatores poderão auxiliar a igreja a ter uma visão global de cristandade, expandindo os redutos locais e denominacionais para uma “aldeia cristã global”.5 Apesar da beleza da diversidade cultural estar estampada em Apocalipse 7:9, o cristianismo está edificado sobre o fundamento absoluto e transcultural dos apóstolos e profetas, sendo Cristo Jesus a pedra angular (Ef 2:20). Ou seja, o cristianismo fornece contornos adequados para a globalização do saber: um prédio edificado sobre uma verdade global em comum, com diversos quartos pintados em diferentes cores culturais.

EFEITOS POSITIVOS E DESAFIADORES NA VIDA PASTORAL
Um último benefício que quero ressaltar tem relação com a vida pastoral. Os blogs podem ser uma ferramenta útil nas mãos dos ministros da palavra de Deus, bem como ter um efeito desafiador positivo.

Mencionei anteriormente como eles podem agilizar a disseminação da Palavra da Igreja, mas creio que esta arma deva estar principalmente nas mãos de pastores, mestres, presbíteros e bispos. Apesar de a Bíblia incentivar a edificação e exortação mútua entre os membros do corpo (Hb 3:13), o sacerdócio universal de todos os crentes (1Pe 2:9) e o ministério dos santos (Ef 4:12), Deus capacitou parte deste corpo para o ministério do ensino (Ef 4:11). Logo, blogs voltados para a edificação e o ensino da igreja devem ter primordialmente a autoria de pastores devidamente preparados e cientes da responsabilidade a eles confiada (Tg 3:1). Isto é algo que espero que mude com o tempo na blogosfera cristã brasileira. Apesar de haver excelentes e conhecidos blogs de pastores, muitos deles estão nas mãos de leigos.

O blog do Desiring God, ministério de John Piper, proeminente pastor e escritor de nossa geração, enumera seis motivos porque pastores devem blogar: escrever, ensinar, recomendar, interagir, desenvolver uma visão do que é significante e ser conhecido como pessoa e não só como pregador.6 Acredito que esta ferramenta pode ser útil nas mãos destes servos de Deus nestes quesitos. Ademais, acrescentaria que a publicação de um material o torna, de certa forma, atemporal. Quando recomendamos um livro sobre determinado assunto estamos fazendo exatamente isso, endossando algo que sobreviveu ao tempo. A diferença é que, com os blogs e sites, a mídia que carrega a mensagem é outra. A publicação de sermões na forma escrita já se dá desde os primórdios da cristandade, passando por Agostinho, Calvino e Martyn Lloyd-Jones. Temos a cristalização do ensino que de outra forma estaria confinado ao tempo e à propagação do som. Com a internet, temos uma oportunidade nova de transmitir o ensino por toda a terra, não mais apenas pela mídia escrita, mas também pela visual. Em tempo e fora de tempo, a mensagem está sendo transmitida on-line, independente da presença física do pregador.

Uma forma pela qual esta ferramenta pode ser útil aos ministros é como extensões da mensagem dominical. É dito que os pregadores puritanos pregavam cerca de uma ou duas horas, fazendo a exegese e a aplicação da mensagem para cada grupo de ouvintes. O pastor moderno provavelmente não tem esse tempo. Assim, um blog poderia ser utilizado para expandir as aplicações da pregação e pressionar a Palavra no coração dos membros. Um sermão que é recapitulado durante toda a semana tem, pela graça e pelo Espírito, um poder transformador muito maior que algo restrito ao domingo.

Por outro lado, os blogs apresentaram um fator desafiador ao pastor moderno: ele terá que “competir” com Charles Spurgeon, nomeado príncipe dos pregadores, e outros grandes expoentes da história cristã. O mesmo membro que ouve a sua mensagem, querido pregador, lerá facilmente as obras de João Calvino e Jonathan Edwards sobre o mesmo assunto. Há fatores negativos nisto, que discutirei adiante; porém, se os dominós colidirem adequadamente, esta “competição” elevará o nível pastoral, à medida que tanto mestres como alunos lerão mais, e, espiritualizando as palavras do escritor português António Lobo Antunes, “um povo que lê nunca será um povo escravo” – ao que de forma similar nos alerta o profeta (Os 4:6). A esperança é que pastores percebam a necessidade de um preparo melhor e voltem a estudar.

PONTOS EM QUE DEVEMOS REFLETIR
Ao adentrarmos nos pontos sobre os quais devemos ter mais discernimento no uso dos blogs, é válido nos lembrarmos de alguns avisos dados por Neil Postman.7 Ele afirma que mudanças tecnológicas nunca são ou totalmente boas ou totalmente ruins, mas que precisamos analisar se os tons de cinza tendem mais para o preto ou para o branco. Sempre haverá prós e contras em toda mudança tecnológica; ela resolverá alguns problemas, mas criará outros. Sendo assim, todo aquele que ama a noiva de Cristo deve exercer um discernimento piedoso antes de pular em qualquer vagão da inovação (ou deixar de pular no vagão da oportunidade). Tendo analisado os benefícios da blogosfera ao futuro da igreja brasileira, passamos agora à análise dos tons mais escuros, pensando inclusive em medidas preventivas. Quero contrapor três pontos em particular: os efeitos no aprendizado da verdade, o estímulo à frustração e à divergência e a digitalização da vida espiritual e comunitária.

EFEITOS NO APRENDIZADO DA VERDADE
Postman também alerta que toda invenção tecnológica carrega consigo uma ideologia. Talvez esta seja difícil de discernir, porém é tão crucial que Marshall McLuhan cunhou a famosa expressão: “o meio é a mensagem”. Ou seja, no próprio meio de comunicação está, na visão de McLuhan, a mensagem mais importante, afinal esse pensamento embutido segue através de qualquer comunicação que use tal meio, seja ela boa ou má. Postman o coloca desta forma:

Cada tecnologia tem uma filosofia que se expressa na forma como a tecnologia faz com que as pessoas usem suas mentes, seus corpos, em como ela codifica o mundo, quais dos nossos sentidos ela amplifica e quais de nossas tendências emocionais e intelectuais ela despreza. Esse constante bombardeio resulta em mudanças lentas, mas significativas, nos receptores. Este é outro aviso de Postman, para o qual ele cunhou a expressão “mudança ecológica”; ou seja, toda variação da tecnologia não é simplesmente uma mera adição, mas um agente transformador do ambiente. Postman traça um paralelo com a biologia, onde a adição de uma nova espécie afeta todo o ecossistema. Ele afirma que “as consequências das mudanças tecnológicas são sempre enormes, muitas vezes imprevisíveis e em grande parte irreversíveis”. McLuhan resume o ponto com maestria na expressão: “O homem cria a ferramenta. A ferramenta recria o homem”.

Para deixar isso menos abstrato, pensemos em alguns exemplos históricos. Sócrates afirmava que a invenção da escrita acabaria com a memória, pois esta não seria mais necessária.8 Apesar de podermos considerar a afirmação um exagero, pense comigo: quantos números de telefone você tem em sua memória depois que passou a anotá-los no celular? Outra ilustração pode ser vista nos efeitos oriundos do surgimento da fotografia. A declaração “uma imagem vale mais que mil palavras” não foi cunhada antes do surgimento do retrato, quando o pensamento linear e lógico dos meios de comunicação escrita vigoravam.

Aplicando isso para a relação entre os blogs e o futuro da igreja brasileira, gostaria de alertar para dois pontos. Primeiro, a forma como a divulgação é feita traz implicações consideráveis em como encontramos a verdade. Há o modelo do Google, baseado em acessos (se algo é bastante acessado, deve ser colocado na frente no mecanismo de busca), o modelo da Wikipédia (o consenso constrói a verdade) e o modelo da Barsa (autoridades no assunto definem a verdade).9

Consideremos o exemplo no qual um novo cristão digita no Google “Por que Cristo morreu?”. Ao fazer isso, ele receberá uma inundação de repostas diferentes – variando desde a posição clássica até a liberal. Qual é a correta? O primeiro link que o Google exibiu? O que todos concordaram na Wikipédia? Um blog que carrega no nome a palavra “evangelho”? Ou um pregador que enfaticamente afirma estar falando sobre o ouvinte?

Sabemos que nenhuma dessas respostas está correta. Em questões de fé e prática, somente a Bíblia, e toda a Bíblia, é a palavra final. O vagão da internet não é seletivo em seu conteúdo. O mesmo trem que carrega a verdade carrega a heresia. Diante da enchente de respostas, a igreja brasileira, através dos seus púlpitos, precisa urgentemente, e mais do que nunca, resgatar o conceito protestante da inspiração, inerrância, autoridade e suficiência das Escrituras (sola Scriptura, tota Scriptura, etc.).

Como nunca, torna-se crítica a formação do espírito bereiano de examinar tudo à luz das Escrituras – e essa responsabilidade está posta diante dos pastores, e não dos blogueiros! –, pois hoje o veneno herético da serpente não entra somente pelo corpo da igreja local, mas pelo ar das redes sem fio. Já observei várias vezes cristãos sem discernimento, colocando lado a lado em sua preferência bons pastores e hereges. Se não for feito algo já, a exposição diversificada tende somente a piorar essa situação.

Assim como, supostamente, nenhum pastor deixaria de alertar um membro que carrega um livro de Ário, Marcião ou Pelágio,10 também é sua responsabilidade alertar o membro que lê qualquer blog dos lobos modernos. Assim como a TV se tornou uma babá mecânica e doutrinou gerações, o mesmo acontece hoje com a internet. O pastor, não como um ditador da fé, mas como alguém que vela pelo rebanho de Cristo a ele confiado (Hb 13:17; 1Pe 5:3), deve estar ciente das heresias propagadas na internet e alertar seus membros acerca dos lobos.

O segundo ponto que quero alertar é o método do ensino. Os blogs são compostos, em sua maioria, por textos curtos e diversificados, raramente sistemáticos ou expositivos. A realidade é que, com uma exceção aqui e outras ali, o leitor prefere receber um conteúdo curto, que não tome mais que cinco ou dez minutos de seu tempo. Normalmente, um vídeo com um desafio agressivo à santidade é mais visto que uma exposição sobre Romanos 6. Muitos preferem ser somente desafiados, ao invés de instruídos.

Logo, se um blog tem sido a alimentação substancial deste cristão, o resultado será um conhecimento fragmentado e superficial. Não estou defendendo que o modelo da blogosfera deva mudar, apesar de crer que seus autores possam contornar tal situação através de séries sobre um determinado assunto, dividindo em várias postagens um texto longo. Estou defendendo que a blogosfera não deve ser a única fonte de alimentação teológica dos cristãos, assim como uma pessoa não deve viver só de devocionais de C.H. Spurgeon, mas também de uma boa exposição sequencial de um livro da Bíblia, uma teologia sistemática, etc. Um livro ainda é uma forma de aprendizado melhor que uma postagem. Pastores, mestres e líderes, eduquem seus membros sobre este assunto.

FRUSTRAÇÃO E DIVERGÊNCIA
Outro fenômeno que tenho observado é a crescente insatisfação de crentes com seus pastores ou até mesmo com a igreja brasileira como um todo. Não desejo colocar toda a responsabilidade disto em ombros virtuais. Há fatores como a mentalidade mundana, egocêntrica e consumista que permeia nossa geração e as próprias falhas, em maior ou menor grau, da igreja local e de seus pastores. Contudo, os blogs têm, de fato, sua parcela de culpa. A frustração dos membros tem se manifestado em pelo menos três formas: insatisfação com o pregador, divergência em doutrinas secundárias e abandono da congregação.

A insatisfação com o pregador não é algo novo. É dito que, quando Jonathan Edwards pregava por algum tempo em igrejas de outras cidades, isso gerava como subproduto uma revolta dos membros daquelas igrejas, insatisfeitos com o nível de seus pregadores. Convenhamos que competir com uma das mentes mais brilhantes do cristianismo é uma luta desleal, e, similarmente, pastores locais hoje competem com grandes expositores, cujas mensagens não estão mais restritas a um espaço físico.

Além disso, os meios de comunicação digital possibilitaram aos membros de igreja acessarem ensinos divergentes aos daqueles ministrados do púlpito. Isso não é negativo em si, mas certamente afetará a vida da comunidade local e o ministério pastoral. Um exemplo disso está registrado no livro Confissões de um Pastor da Reformissão, de Mark Driscoll,11 no qual ele relata um embate com membros que defendiam uma linha escatológica diferente, mas não herética. Não intenciono entrar no mérito da questão, mas mostrar que os pastores deverão cada vez mais saber exortar com toda a paciência e doutrina (2Tm 4:2): doutrina para defender sua posição teológica com base bíblica e paciência para saber lidar em amor com aqueles que discordam, já que esse fenômeno tende somente a aumentar.

A disponibilidade de material saudável online, somado à gradual desconfiança com pastores por causa de abusos dos mercenários da fé e por causa de ministros despreparados,12 já tem levado ao fenômeno dos “desigrejados”,13 o qual tem crescido.14 Apesar de a responsabilidade moral ser do dissidente e do fato de até bons blogs poderem gerar esse subproduto, blogs apologéticos devem atentar-se para a forma como tratam os escândalos modernos. Se remediarem a situação com um tratamento cínico, ácido e desassociado do amor à Igreja de Cristo, eles poderão piorar a gastrite eclesiástica do leitor. Blogueiros devem fazer as devidas ressalvas para que não se faça qualquer generalização tola, assemelhando a casa do Deus vivo às igrejas que “têm [se] degenerado ao ponto de não serem mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás”, conforme nos lembra a Confissão de Fé de Westminster.

Consequentemente, pastores e blogueiros devem atentar-se a isto e tomar medidas preventivas e terapêuticas, alertando de forma correta sobre as heresias, mas também afirmando a importância da igreja local e de focarmos nossa atenção nos ensinos essenciais e inegociáveis em que concordamos – e não no que discordamos em questões secundárias à fé.

A DIGITALIZAÇÃO DA VIDA ESPIRITUAL E COMUNITÁRIA
Outro perigo da era virtual para a vida da igreja é a “digitalização” da piedade. Com esse termo quero aludir não à externalização da piedade do coração a todos os âmbitos da vida humana, mas ao confinamento da vida espiritual ao âmbito digital. Talvez Cristo utilizasse a expressão “sepulcros caiados” para aludir às demonstrações externas de piedade em blogs e redes sociais, quando contrastada pela podridão da vida privada.

Mas não é só a vida particular que esta era digital tem influenciado. Creio que essa influência se dá principalmente na vida comunitária. Um debate que logo tomará maiores proporções dentro do evangelicalismo brasileiro, o que já tem acontecido no norte-americano e no europeu, é a questão da igreja virtual. Resumidamente, seria assistir a um culto pelo computador aos domingos.15 Alguns sites inclusive alertam antecipadamente quais são os domingos de ceia, para que aqueles que acompanham virtualmente possam se preparar. Há diversas nuances e diversos casos que renderiam um novo texto, mas, de forma breve, creio que precisamos resgatar nesta geração individualista o caráter pactual e comunitário do cristianismo. Diversos mandamentos são impraticáveis se dois ou mais não estiverem reunidos em nome de Cristo (Mt 18:20; Hb 3:13; 10:25; 1Co 12; etc.).

Outra questão para considerarmos é o aconselhamento virtual. Não são poucas as pessoas que desconsideram seus pastores (por motivos justificáveis ou não) e buscam aconselhamento com amigos de redes sociais ou blogueiros, que por vezes gozam de fama oriunda da posição de ensino e de destaque – ainda que afastados da comunidade local. Onde traçamos a linha do aceitável e saudável nesta gama de eventos que variam desde a simples exortação à perseverança na fé até o aconselhamento em casos de adultério? As exortações de Hebreus para edificarmos uns aos outros podem ser restritas à mídia digital? Alguém que não se dispõe ou não é qualificado a ensinar em sua congregação deveria manter um blog de ensino? Creio que a resposta de todo aquele que ama a Igreja deva ser que o relacionamento eclesial, local e presencial deve ter a primazia sobre o digital, ainda que esse possa representar um relacionamento da Igreja Visível.

UM CLAMOR EM PROL DA IGREJA LOCAL

Por fim, gostaria de clamar a pastores e blogueiros para considerarmos atentamente e amarmos intensamente a Igreja de Cristo, principalmente em sua expressão local. Aquele que diz amar a Igreja, mas não o faz em sua expressão local não estará caindo no mesmo erro condenado pelo apóstolo em 1 João 4:20?16

Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para apresentá-la a si mesmo gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito (Ef 5:25-27). Vemos este amor demonstrado na preocupação do próprio Salvador com as igrejas em Apocalipse 1-3. Da mesma forma, Paulo se comprometeu em apresentar os santos de Corinto perfeitos diante do esposo, que é Cristo (2Co 11:2). Sendo assim, todo blogueiro que se propõe a ensinar a doutrina cristã deve ter uma mentalidade voltada para o bem da Igreja, tanto universal como local. Isso deve transbordar em seus escritos, em suas postagens, em suas atualizações. Uma visão que não abranja essa verdade pode acabar prejudicando a igreja, mesmo que o autor tenha boas intenções – e, portanto, seria recomendável parar tal empreendimento.

Blogueiros, precisamos ajustar nosso foco. A ênfase na igreja local se faz necessária nesta geração que abre mais a janela do Facebook para dar um bom dia a todos (e a ninguém) do que a janela de sua casa para saudar seu vizinho. Uma espiritualidade digital que não se manifesta numa vida comunitária é um sintoma de doença espiritual. Um crítico de plantão que gasta horas em debates pela internet, mas que não discipula ninguém em sua congregação ou não participa da adoração comunitária, deve rever suas prioridades.

Blogueiros, precisamos ter a humildade de saber que a Igreja de Cristo irá sobreviver com ou sem nossos blogs, mas não sem a Palavra. As portas do inferno não prevalecerão contra a igreja mesmo se os ventos de perseguição soprarem sobre nosso país e todos os blogs e editoras cristãos forem fechados (Mt 16:18). Isso não significa que eles são insignificantes. Não o são. São preciosos na propagação da verdade, mas não indispensáveis para a existência e continuação da igreja cristã.

Nós não vamos mudar o mundo através de compartilhamentos no Facebook e postagens no Blogger, Tumblr ou Wordpress. O Reino avança através da edificação de igrejas locais, e todo o resto é subserviente a este fim. Sendo assim, aquele que almeja ter um blog voltado para a edificação da igreja excelente obra almeja; porém, que antes trema diante do maior juízo que lhe sobrevirá e examine suas motivações para ver se fluem de um genuíno amor pela igreja de Cristo. Escrevamos e postemos a fim de que Cristo seja glorificado e a igreja, edificada.

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