Pesquisar neste blog

9 de set de 2013

Entrevista com William Lane Craig

Alguns minutos com o Dr. William Lane Craig: Entrevista de John D. Martin

De 28 a 30 de março, o filósofo cristão, teólogo, escritor e palestrante Dr. William Lane Craig apresentou uma série de oficinas e debates no campus da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana (EUA). A série culminou com um debate sobre a existência Deus com o filósofo ateu Dr. Austin Dacey. Na tarde da terça-feira, Dr. Craig reservou graciosamente algum tempo do seu agitadíssimo horário para conversar comigo em nome da revista Boundless. Segue-se a transcrição da minha entrevista.

Boundless: Olá, Dr. Craig. Gostaria de conversar brevemente sobre questões relacionadas à apologética e ao evangelismo no campus. Tenho especificamente perguntas que dizem respeito aos alunos de graduação que vivem e trabalham em ambiente secular. Para começar, tenho apenas uma pergunta biográfica geral: o que o levou a esse ministério em particular?

Craig: Bem, venho de uma família não cristã; portanto, quando vim a Cristo no ensino médio quis compartilhar a minha fé com meu irmão e com os amigos não cristãos da escola. Assim, fui confrontado imediatamente com a necessidade de fornecer razões para a minha fé recém-encontrada. Por isso, desde o princípio apresentava as razões para a minha fé. Esse interesse foi aguçado quando fui estudar em Wheaton College, onde aprendi a integrar a minha fé com o estudo. Foi lá que senti o chamado para entrar na área de evangelismo que apelaria tanto à cabeça quanto ao coração.


Boundless: Certo. Gostaria de falar sobre questões de apologética e evangelismo no campus. Quais são hoje os maiores desafios para os cristãos que querem apresentar argumentos intelectuais para a sua fé, nos campi universitários?

Craig: Acho que hoje o maior obstáculo seja o pluralismo religioso ou o relativismo. Os estudantes não consideram que as crenças religiosas sejam conhecimento. Não entendem que são expressões de fatos, e não pensam que são coisas que podem ser conhecidas. Portanto, veem as crenças religiosas como meras expressões de gosto ou opinião pessoais. O resultado é que, quando os cristãos afirmam que conhecem a verdade sobre essas questões, as pessoas ficam profundamente ofendidas e os consideram como fanáticos, dogmáticos e até imorais. Entendo que esse seja o maior de todos os desafios. Outro relacionado a ele seria que, em razão das questões morais defendidas hoje pelos cristãos, muitos estudantes não cristãos nos consideram como pessoas realmente imorais, realmente más. Eles... Bem, certo estudante não cristão falou-me o seguinte: “Por que os cristãos tomam sempre o lado errado de questões morais como aborto, homossexualismo, e assim por diante?”. Para ele, os cristãos são realmente pessoas imorais por causa das posições que assumem, e isso é um imenso obstáculo ao apresentar a nossa fé. 

Boundless: Como esse tipo de ministério universitário orientado apologeticamente mudou nos anos recentes? À luz de todo esse pluralismo e relativismo, ele tem mudado?

Craig: Não acho que tenha mudado. Entendo que precisamos continuar fazendo as mesmas coisas, exceto que precisamos abordar mais direta e frontalmente questões como pluralismo e relativismo; por isso, estou ávido para dar palestras sobre esses temas. É interessante. Quando dou palestras sobre isso e exponho os problemas de maneira bastante vívida, dificulto os problemas o máximo que posso, antes de tentar resolvê-los. A reação que recebo dos estudantes é muito positiva. Não recebo hostilidade nem ceticismo. Descubro que, se você der uma resposta boa, sólida e bem argumentada, parece ir ao encontro da necessidade. Portanto, acho que não devíamos mudar nada, exceto ser mais diretos e confrontar as questões sem rodeios.

Boundless: O senhor poderia explicar brevemente a diferença entre pluralismo social e pluralismo filosófico? ... Apenas em poucas palavras.

Craig: Certo. Pluralismo político é algo que todos ratificamos, porque vivemos todos numa sociedade democrática que enfatiza uma carta de direitos. Todos nós temos liberdade religiosa, liberdade de expressão, liberdade de opinião, e assim por diante. E por isso todos nós, especialmente os cristãos, que creem em liberdade de consciência, queremos ratificar esse tipo de pluralismo político. Mas o erro é pensar que pluralismo político implica pluralismo com respeito à verdade [i.e., pluralismo filosófico]. É isso o que rejeito. Defendo que a base apropriada para a tolerância é que todo ser humano é feito à imagem de Deus e, portanto, dotado de certos direitos concedidos por Deus, como liberdade de crença, liberdade de expressão. Assim, tolerância significa que eu posso discordar daquilo que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo. Infelizmente, na nossa era politicamente correta, muitas pessoas têm a impressão de que tolerância significa: “Não ouso discordar do que você diz, para não ser rotulado de fanático ou dogmático por ter ousado dizê-lo”.

Boundless: Sim, é uma mistura equivocada de “tolerância” com “concordância” ou “aprovação”.

Craig: Sim.

Boundless: Vejamos... próxima pergunta... Que argumentos contra o teísmo parecem mais eficazes?

Craig: Acho, sem dúvida, que seja o problema do sofrimento de inocentes. Esse argumento tem tremendo apelo emocional, especialmente entre muitos estudantes procedentes de contextos familiares danosos e disfuncionais que trazem consigo muitas cicatrizes emocionais. Acho que, na maioria dos casos, os estudantes se perguntam: “Por que Deus permitiu que eu, como criança, fosse criado num lar que me deixou tão disfuncional emocionalmente?”. Esse problema, penso eu, repercute nos estudantes, e é muito difícil de ser vencido.

Boundless: Que argumentos favoráveis ao teísmo parecem os mais eficazes?

Craig: Curiosamente, creio que o argumento moral é o mais eficaz. Eu, pessoalmente, gosto dos argumentos científico e filosófico, baseados na ciência e na cosmologia. Mas acho que esses não sensibilizam tanto os estudantes como o argumento moral, segundo o qual sem Deus não existe nenhum fundamento absoluto para os valores morais. Portanto, se você defende o valor de coisas como tolerância, amor, lealdade, direito das mulheres, e assim por diante, você precisa ter um ponto de ancoragem transcendental. Você precisa ter Deus. Acho que os estudantes [tão familiarizados com a ideia de que Deus está morto, logo tudo é relativo] correspondem a esse argumento, quando você lhes diz que, sem Deus, não há absolutos morais. Então, você apenas os ajuda a ver quão terrível o mundo seria sem absolutos morais, e que eles mesmos — se examinarem suas próprias consciências introspectivamente — já ratificam absolutos morais, a despeito do culto nominal que prestam ao relativismo. Portanto, esse argumento exerce apelo tremendo aos estudantes. É um argumento ao qual eles correspondem.

Boundless: Agora, ao contrário: quais são os argumentos menos eficazes contra o teísmo?

Craig: Sabe, essa é realmente uma pergunta difícil. Suponho que seriam os argumentos demasiadamente abstratos e filosóficos. Por exemplo, em recente debate que tive com Walter Sinnott-Armstrong, em Dartmouth College, ele argumentou que, se Deus é atemporal, então, ele não poderia atuar na história. Bem, esse argumento é tão abstrato e alheio à vivência diária que não acho que mexa com as pessoas.

Boundless: Suponha agora que o senhor esteja falando a estudantes de graduação em encontro interuniversitário em algum lugar: que argumentos contra o ateísmo o senhor lhes diria que são ineficazes?

Craig: Sem dúvida, creio que o argumento ontológico seria o menos eficaz a favor de Deus. Senti-me tentado demais a usá-lo num debate outro dia! Considero-o um argumento sólido. Penso que seja um bom argumento para a existência de Deus. Mas, sempre que tento explicá-lo, é tão abstrato e tão acima da cabeça das pessoas que, no final, descarto-o, porque ninguém nunca o entende. Esse é um argumento que não funciona muito bem. Continuo terrivelmente tentado a experimentá-lo algum dia.

Boundless: E agora, uma pergunta do “Advogado dos Carismáticos e Pentecostais”: tenho muitos amigos e conhecidos que estão em igrejas como a Assembleia de Deus e a Igreja de Deus em Cristo; quando me refiro à apologética, às vezes eles me confrontam dizendo categoricamente que nada disso importa. Eles dizem que “a conversão é toda do Espírito Santo”, que “você não vai nunca precisar discutir com ninguém para levar-lhe o Reino”, etc.. Como o senhor responde a esse tipo de crítica?

Craig: Digo que, da mesma maneira que o Espírito Santo pode usar a pregação, pode também usar a apologética e as discussões para trazer alguém para si mesmo. A chave aqui é entender que o Espírito Santo usa meios. Ele usa meios pelos quais traz as pessoas para si mesmo. Não há razão para pensar que ele não pode usar os argumentos e as evidências da mesma maneira que usa a pregação. Quando você observa o livro de Atos, essa é exatamente a maneira de Paulo operar. Ele argumentava com o povo, dava palestras na escola de Tirano e discutiu essas coisas com os filósofos do Areópago. Acho que, ao lidar com pessoas de origem carismática ou pentecostal, o mais eficaz a fazer é simplesmente mostrar-lhes os argumentos em uso no evangelismo. Elas ficam animadas. São céticas só porque não viram a argumentação feita com eficácia. Acabei de chegar, faz algumas semanas, de uma grande igreja da Assembleia de Deus em Edmonton, Canadá, onde tivemos mais de 900 pessoas na faixa dos 20 e poucos anos de idade. Falei do absurdo da vida sem Deus, e elas absorveram tudo. Você não pode apelar apenas às emoções e ser uma pessoa completa. Até mesmo as pessoas nessa subcultura de cristianismo carismático e pentecostal têm mentes que anseiam por respostas. Quando veem a coisa em ação, integrada a um compromisso apaixonado por Cristo, elas a amam, também. Elas realmente absorvem tudo.

Boundless: O senhor poderia sugerir uma lista de leituras para os cristãos cursando graduação que desejam montar o próprio arsenal filosófico para a defesa da fé cristã?

Craig: Eu começaria, primeiro, dominando algum material bíblico. Por exemplo, obteria o livro New Testament Introduction, de Donald Guthrie, publicado por InterVarsity. Adquiriria ainda o Dictionary of Jesus and the Gospels, publicado também por InterVarsity. Se você quiser uma boa introdução à filosofia, J. P. Moreland e eu escrevemos o livro Philosophical Foundations for a Christian Worldview, publicado por InterVarsity. 1 É um livro um tanto difícil ou de nível intermediário, mas, mesmo assim, é muito bom adquiri-lo. Outro bom livro que se deve adquirir é Reason for the Hope Within, organizado por Michael Murray. Há uma série de pequenos livros publicados por Ravi Zacharias International Ministries, escritos por filósofos cristãos, sobre um grande leque de questões apologéticas. Eu encorajaria as pessoas a obter a série completa com cerca de 15 livretos e estudá-los do começo ao fim. Meu próprio livro, Reasonable Faith, 2 apresenta, penso eu, uma apologética sólida e positiva da fé cristã, baseando-se na existência de Deus e na ressurreição de Jesus Cristo como suas duas colunas. Recomendaria ainda mais um livro, Jesus Under Fire, organizado por Wilkins e Moreland, publicado pela Zondervan. É um livro extraordinário em resposta ao dito Jesus Seminar [Seminário Jesus]. Acho-o bastante oportuno. 

Boundless: Segue a mesma linha de Cynic, Sage, or Son of God, de Boyd?

Craig: Sim, mas foi escrito por vários autores evangélicos, cooperando cada um com um capítulo. Assim, você tem nele uma real variedade de especialidades. 

Boundless: Além disso, o senhor poderia recomendar algo alinhado com leituras pré-evangelísticas, digamos, para quem tem amigo, colega de quarto, companheiro ou companheira de fraternidade acadêmica que seja cético? Alguém que realmente não quer ler a Bíblia? O que recomendaria para essa pessoa?

Craig: Acho que The Case for the Creator e The Case for Christ, 3de Lee Strobel, seriam bons livros para se pôr nas mãos de quem está em busca. Vejo que Deus tem usado esses livros para trazer muitas pessoas a Cristo. 

Boundless: Obrigado pelo seu tempo, Dr. Craig!

Notas
1Publicado em português com o título Filosofia e cosmovisão cristão (São Paulo: Vida Nova, 2005). [N. do R.]
2 Publicado em português com o título Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2012). [N. do R.]
3 Publicado em português com o título Em defesa de Cristo (São Paulo: Vida, 2001). [N. do R.]

2 comentários:

  1. Bom dia,
    Esses livros que Craig citou, possuem em português?

    Obrigado pelo post!

    ResponderExcluir
  2. Os que ele citou estão nas notas no final do post (1 - Filosofia e cosmovisão cristão,São Paulo: Vida Nova, 2005, 2 - Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã,São Paulo: Vida Nova, 2012, 3 - Em defesa de Cristo,São Paulo: Vida, 2001.).

    Como livro introdutório, eu recomendaria o "Em guarda", que é um resumo dos principais argumentos apologéticos dele e escrito para leigos (neste link: http://www.vidanova.com.br/produtos.asp?codigo=604 ou no mercado livre).

    Aqui tem outros livros dele: http://www.vidanova.com.br/autores.asp?codigo=171

    ResponderExcluir