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21 de jun de 2013

O Anti-intelectualismo Evangélico e a Avaliação de John Wesley

O artigo abaixo é composto por fragmentos de artigos de outros blogs. Ele trata sobre a crise que a
igreja enfrenta na área intelectual, sobretudo a brasileira. Enquanto no passado, uma visão ampla e crítica de mundo era buscada por grandes homens e pregadores, até hoje lembrados por sua ousadia e fidelidade à mensagem do Evangelho, hoje ela é até demonizada, relegada e ignorada por parte do evangelicalismo tupiniquim.  E o pior: o conhecimento teológico tem sido sistematicamente substituído por um experiencialismo maléfico e alienador, tornando alguns cristãos hiper emocionais e como crianças espirituais. Em termos de ignorância das doutrinas bíblicas, acho que nossa época já pode ser comparada à Idade das Trevas da história da Igreja.

Por fim, há uma valiosa avaliação que o grande John Wesley recomendou àqueles que se dedicavam ao estudo da Bíblia. Não é demais dizer que devamos nos submeter a ele e avaliar nossas respostas e, caso haja falhas, buscar conserto. Espero que isso te ajude.

Vamos ao artigo…


Devo ser franco com vocês: o maior perigo que ameaça o cristianismo evangélico norte-americano [e o brasileiro] é o perigo do anti-intelectualismo. A mente, em suas dimensões mais amplas e profundas, não está sendo levada suficientemente a sério. A nutrição intelectual não pode acontecer separadamente de uma profunda imersão, por vários anos, na história do pensamento e do espírito. As pessoas que estão com pressa de sair da universidade e de começar a ganhar dinheiro, ou de servir a igreja, ou de pregar o evangelho, não fazem a menor ideia do imensurável valor de gastar anos de prazer conversando com as maiores mentes e espíritos do passado, amadurecendo, aperfeiçoando e ampliando os seus poderes de pensamento. O resultado é que a arena do pensamento criativo está vazia e plenamente entregue ao inimigo. (Charles Malik, “The Other Side of Evangelism”, Christianity Today, Novembro, 1980, p. 41)

OK, talvez não seja “o” maior perigo. Mas certamente é um dos. No Brasil, o “anti-intelectualismo” ou a “estagnação intelectual” tem raízes na própria falta de educação geral, quanto em uma visão errônea de piedade, que diz que ser intelectual e ser cheio do Espírito são coisas opostas. Isso é claramente desmistificado quando vemos a vida de Paulo: altamente piedoso, altamente missionário, altamente cheio do Espírito e altamente intelectual. Suas cartas que o digam.

O historiador e teólogo David Wells chamou nossa geração atual de pastores de “os novos obstáculos”, porque abandonaram o papel tradicional de pastor como um proclamador da verdade para a sua congregação, e substituíram-no por um novo modelo gerencial que enfatiza as habilidades de liderança, marketing e administração.

Mas para reforçar a defesa de que pensar profundamente sobre Deus e viver profundamente cheio do Espírito, chamamos o testemunho de John Wesley, um dos avivalistas mais conhecidos. A questão não é se concordamos com tudo o que Wesley diz abaixo (ou em sua vida), mas sobre nos livramos da noção de que alguém pode buscar ser cheio do Espírito, sem que isso envolva sua mente.


Em um capítulo intitulado “Estagnação Intelectual”, William Lane Craig, autor de “Apologética para Questões Difíceis da Vida“, citou o conhecido avivalista John Wesley. Ele disse que em 1756, Wesley apresentou “An Adress to the Clergy” [Discurso ao Clero - John Wesley, Works, Vol. 6 , pg 217-231], textos que os futuros pastores de nosso tempo deveriam ler como parte de seu treinamento. Ao discutir o tipo de habilidades que um pastor deveria ter, Wesley distinguiu entre “dons naturais” e “habilidades adquiridas”. É extremamente instrutivo ponderar as habilidades que Wesley considerava que um ministro deveria adquirir:

Não deveria um ministro ter, primeiramente, uma boa compreensão, uma apreensão clara, um julgamento sadio e uma capacidade de argumentar com um pouco de competência? […] Não seria determinado conhecimento (a metafísica) chamado de a segunda parte da lógica, se não tão necessário como [a própria lógica], ainda assim altamente apropriado? Não deveria um ministro se familiarizar ao menos com os fundamentos gerais da filosofia natural?

1) Como alguém que se esforça para explicar a Escritura a outras pessoas, tenho o conhecimento necessário para que ela possa ser luz nos caminhos das pessoas?… Estou familiarizado com as várias partes da Escritura; com todas as partes do Antigo Testamento e do Novo Testamento? Ao ouvir qualquer texto, conheço o seu contexto e os seus paralelos?… Conheço a construção gramatical dos quatro evangelhos, de Atos, das epístolas; tenho domínio sobre o sentido espiritual (bem como o literal) do que leio?…Conheço as objeções que judeus, deístas, papistas, socinianos e todos os outros sectários fazem às passagens das Escrituras, ou a partir delas?… Estou preparado para oferecer respostas satisfatórias a cada uma dessas objeções?


2) Conheço grego e hebraico? De outra forma, como poderei (como faz todo ministro) não somente explicar os livros que estão escritos nessas línguas, mas também defendê-los contra todos os oponentes? Estou à mercê de cada pessoa que conhece, ou pelo menos pretende conhecer o original?…Entendo a linguagem do Novo Testamento? Tenho domínio sobre ela? Se não quantos anos gastei na escola? Quantos anos na universidade? E o que fiz durante esses anos todos? Não deveria ficar coberto de vergonha?

3) Conheço meu próprio ofício? Tenho considerado profundamente diante de Deus o meu próprio caráter?O que significa ser um embaixador de Cristo, um enviado do Rei dos céus?

4) Conheço o suficiente da história profana de modo a confirmar e ilustrar a sagrada? Estou familiarizado com os costumes antigos dos judeus e de outras nações mencionadas na Escritura? …Sou suficientemente (se não mais) versado em geografia, de modo a conhecer a situação e dar alguma explicação de todos os lugares consideráveis mencionados nela?

5) Conheço suficientemente as ciências? Fui capaz de penetrar em sua lógica? Se não, provavelmente não irei muito longe, a não ser tropeçar em seu umbral… ou, ao contrário, minha estúpida indolência e preguiça me fizeram crer naquilo que tolos e cavalheiros simplórios afirmam: “que a lógica não serve para nada?” – Ela é boa pelo menos… para fazer as pessoas falarem menos – ao lhes mostrar qual é, e qual não é, o ponto de uma discussão; e quão extremamente difícil é provar qualquer coisa. Conheço metafísica; se não conheço a profundidade dos eruditos – as sutilezas de Duns Scotus ou Tomás de Aquino – pelo menos sei os primeiros rudimentos, os princípios gerais dessa útil ciência? Fui capaz de conhecer o suficiente dela, de modo que isso clareie minha própria apreensão e classifique minhas ideias em categorias apropriadas; de modo que isso me capacite a ler, com fluência e prazer, além do proveito, as obras do Dr. Henry Moore, “A Busca da Verdadede – de Malenbranche”, “A Demonstração do Ser e dos Atributos de DEUS – do Dr. Clark?” Compreendo a filosofia natural? Tenho alguma bagagem de conhecimento matemático?… Se não avencei assim, se ainda sou um noviço, que é que eu tenho feito desde os tempos em que saí da escola?

6) Estou familiarizado com os Pais da Igreja, aqueles veneráveis homens que viverem aqueles tempos, aqueles primeiros dias? Li e reli os restos dourados de Clemente de Roma, de Inácio de Antioquia, Policarpo, dei uma lida, pelo menos rápida nos trabalhos de Justino Mártir, Tertuliano, Orígenes, Clemente de Alexandria e de Cipriano?

7) Tenho conhecimento adequado do mundo? Tenho estudado as pessoas (bem como os livros), e observado seus temperamentos, máximas e costumes? […] Esforço-me para não ser rude ou mal-educado…sou afável e cortês para com todas as pessoas? Se sou deficiente mesmo nas capacidades mais básicas, não deveria me arrepender frequentemente dessa falta? Quão frequentemente…tenho sido menos útil do que eu poderia ter sido!

“A idéia que Wesley faz de um pastor é notável: um cavalheiro qualificado nas Escrituras e familiarizado com a história, a filosofia e a ciência de seus dias. Como ficam os pastores que se formam em nossos seminários quando comparados a esse modelo?”

É notável essa perspectiva de Wesley de como deve ser o pastor: Um cavalheiro, hábil nas Escrituras, conhecedor da história, da filosofia e da ciência do seu tempo. Quantos pastores graduados em nossos seminários se enquadrariam nesse modelo?

O historiador e teólogo David Wells chamou nossa geração atual de pastores de “os novos obstáculos”, porque abandonaram o papel tradicional de pastor como um proclamador da verdade para a sua congregação, e substituíram-no por um novo modelo gerencial que enfatiza as habilidades de liderança, marketing e administração.

Como resultado, a igreja tem produzido uma geração de cristãos para os quais a teologia e irrelevante e cujas vidas fora da igreja praticamente não difere em nada da dos ateus. Wells queixa-se de que essa geração de pastores-gerentes, tem maltratado e despreparado a igreja, pois ela tem se tornado cada vez mais vulnerável a todas as seduções da modernidade, exatamente porque não ofereceram a alternativa, que é uma vida centrada em Deus e sua verdade. (J. P. Moreland & William Lane Craig, in Filosofia e cosmovisão cristã. Editora Vida Nova, 2008; pág. 19).
Fonte: Blog do Lino

2 comentários:

  1. Sinto me envergonhado e desafiado a me esforçar muito além das minhas forças para me tornar ao menos digno de ser chamado pastor das ovelhas de Cristo Jesus.

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  2. Excelente post. A igreja evangélica tem negligenciado a mente e o intelecto, como se fosse algo desnecessário. A consequência disso tem sido uma geração que não sabe dialogar ou sequer entender o mundo que os cerca.

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