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24 de abr de 2011

A necessidade da santidade no ministério pastoral - Richard Baxter

Atentem que não estejam vazios da mesma graça salvadora de Deus que oferecem a outros, alheios à operação efetiva do evangelho que pregam, para que, enquanto proclamam ao mundo a necessidade de um Salvador, seu próprio coração não seja negligenciado e acabem perdendo o interesse no próprio Senhor e em sua obra. Cuidem que não pereçam, morrendo de fome enquanto preparam o alimento para o povo...

Ser um professor não-santificado já é uma grande temeridade; mas, pior ainda, é ser um pregador não-santificado. Os senhores não temem que, ao abrir a Bíblia, leiam a sua própria sentença de morte? Não temem que, ao preparar o sermão, estejam escrevendo a acusação de sua própria alma? Quando argumentam contra um pecado, acaso não fazem aumentar a gravidade de sua própria condição? A proclamação das insondáveis riquezas de Cristo e sua graça não anuncia sua própria iniqüidade, caso a rejeitem e evitem? Como os senhores poderão persuadir os homens a aceitar Cristo, conduzi-los do mundo para uma vida de fé e santidade, se eles mesmos, despertada a consciência, discernirão também a confusão interior de quem lhes fala? Muitos, ao falar do inferno, falam da própria herança; ao descrever as alegrias do céu, descrevem a própria miséria, pois não têm direito à "herança dos santos em luz". O que poderá ser dito que não seja contra a própria alma?

Ah! Miserável vida a de um pastor que estuda e prega contra si mesmo, gastando o dia em autocondenação! O homem desprovido da graça e inexperiente na fé é uma das criaturas mais infelizes sobre a terra. É insensível quanto à própria infelicidade, pois apresenta valores parecidos com o ouro da graça salvadora e pedras que se assemelham às jóias cristãs, raramente se preocupando com a própria pobreza. Diz: "Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma", sem saber que é "infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu".34 Conhece as Escrituras, conhece os deveres santos, não vive em pecado ignóbil e descarado, serve o altar de Deus, repreende as faltas dos outros, e prega a santidade de coração e vida - como poderia tal homem não ser santo? Que miséria, perecer no meio da fartura! - Morrer de fome, tendo às mãos e oferecendo aos outros o pão da vida. Manter uma ilusão, quando as ordenanças divinas deveriam ser os meios para nosso próprio convencimento e salvação. Exibir a outros o espelho do evangelho para que vejam o rosto de suas almas, e, quanto a si mesmo, retirar os olhos e esquecer-se da própria aparência! Tal homem deveria aceitar o meu conselho e prestar contas de seu coração e de sua vida ao Senhor. Deveria pregar para si mesmo antes de pregar aos outros. Deveria considerar sobre o alimento que não lhe vai da boca para o estômago. Perguntar a si mesmo se aquele que chama pelo nome de Cristo não deveria apartar-se da iniqüidade; se Deus ouve as orações de quem contempla a vaidade em seu coração. De que servirá dizer no dia de juízo: "Porventura, não temos nós profetizado em teu nome...", e ouvir as terríveis palavras:".. .nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade".35 Que consolo haverá para Judas quando, no seu lugar, lembrar que pregava com os demais apóstolos, assentava-se ao lado de Cristo e o chamava de "amigo"?

Quando tais pensamentos tiverem entrado em sua alma e trabalhado em sua consciência, sugiro que procurem suas congregações e preguem o sermão de Orígenes sobre Salmos 50.16,17: "Mas ao ímpio diz Deus: De que te serve repetires os meus preceitos e teres nos lábios a minha aliança, uma vez que aborreces a disciplina e rejeitas as minhas palavras?". Exponham o texto e apliquem-no em lágrimas; confessem livre e plenamente o pecado, lamentando a incredulidade e a infidelidade diante da congregação; peçam, em oração sincera, o perdão e a graça renovadora para que, doravante, possam pregar um Salvador a quem conhecem, sintam o que falam e recomendem as riquezas do evangelho que agora conhecem de experiência própria.

Infelizmente, a existência de pastores não-regenerados e inexperientes é um perigo e uma desgraça comum na Igreja. Há homens que se tornam pregadores antes de se tornarem cristãos, consagrados ao ministério de Deus antes de terem sido santificados e de terem os corações consagrados ao discipulado de Cristo. Tais homens adoram um Deus que desconhecem e pregam um Cristo a quem não seguem; oram por meio de um Espírito que não lhes testifica a filiação e recomendam um estado de santidade e comunhão com Deus, glória e felicidade, que igualmente não experimentam - e que talvez jamais conhecerão.

Aquele que não possui no coração a graça nem o Cristo a quem prega será sempre um pregador sem coração. Se nossos alunos nos seminários apenas considerassem tal coisa! Fazem mal a si mesmos, aplicam tempo tentando obter conhecimento das obras de Deus e de alguns termos especiais, sem se aplicarem ao conhecimento do próprio Deus para o exaltar e, assim, conhecer a singularidade da obra que realmente renova e satisfaz. Há alguns que vão à roda em vãs exibições, passando a vida como quem sonha sonhos vãos, que promovem nomes e novidades, mas permanecem estranhos a Deus e à vida dos santos. Se tais homens forem despertados pela graça salvadora, cogitarão de assuntos tão mais sérios do que suas arengas prévias não-santificadas, que confessarão ter vivido antes apenas em sonhos.

Criam um mundo de ilusão religiosa, enquanto permanecem alheios a Deus, o qual é o ser primeiro, necessário, independente e tudo em todos. Nada poderá ser conhecido, se Deus não for conhecido primeiro; nenhum estudo será bem feito, se Deus não for estudado. Conheceremos pouco sobre a criatura, até que conheçamos como ela se relaciona com o Criador: letras e sílabas avulsas nada mais são do que falta de senso. E necessário conhecer o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, para que alguma coisa seja realmente conhecida. Toda criatura, tal como se encontra em pecado, é apenas sílaba quebrada; não tem significado à parte de Deus. Separada de Deus, a pessoa experimenta a existência numa esfera de morte. Quando, em nossa imaginação, separamos as pessoas de Deus, reduzimo-las a nada. Uma coisa é conhecer as criaturas como a cultura secular as percebe, e outra, bem diferente, é conhecê-las sob os olhos de Cris to. Só um cristão poderá ler uma linha de um tratado de física e entendê-la corretamente. O estudo da criação sob o olho crítico da Palavra de Deus poderá ser elevado e excelente; mas, aos olhos da filosofia e ciência humana, apenas nos dará a conhecer uma parte decaída, pequena, fragmentada e reversa.

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