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1 de mai de 2010

Um chamado ao avivamento - Dr. Martyn Lloyd-Jones


A igreja, dizem eles, deve fazer todas essas coisas, mais especialmente com o fim de atrair os jovens e segurá-los. Agora, a questão importante não é o que pensamos dessas coisas propriamente ditas, mas é: a igreja teria alguma coisa a ver com essas questões? Que é a Igreja no Novo Testamento? Há somente uma reposta para essa pergunta- é uma comunhão de santos. O que vemos ali é certo número de pessoas reunindo-se com um propósito especial. Quem são essas pessoas? Que é que os reúne? Que interesse comum é tão forte em seus corações que muitas vezes arriscam suas vidas para estar presentes em tais reuniões? São pessoas diferentes das outras, pessoas que, segundo o apóstolo Paulo, foram tiradas do mundo e separadas da sociedade; pessoas que provaram coisas das quais o mundo nada sabe; pessoas que tiveram uma experiência da graça de Deus no Senhor Jesus Cristo; pessoas que já passaram a ver que a coisa mais importante da vida é ter conhecimento de Deus, numa relação que esteja de acordo com os Seus mandamentos. Viram o seu lastimável e desesperado estado diante de Deus, mas também viram Deus perdoando todos os seus pecados em Jesus Cristo. Estão cientes de uma nova vida e de um enobrecedor poder que as torna mais que vencedoras - mesmo quando se vêem face a face com as tentações e provações da vida. Tudo é novo para elas, e elas vêem a vida neste mundo como uma peregrinação rumo a Deus e ao céu. Elas não desprezam o mundo, todavia não vivem para ele, nem por causa dele. "Porque não temos aqui cidade permanente", dizem elas, "mas buscamos a futura" (Hebreus 13:14).


Esses cristãos se reúnem - por qual razão? Para prestar culto a Deus, para louvar o Seu bendito Nome, para agradecer-Lhe a graça que levou ao perdão dos pecados, e a uma nova vida em Cristo. Também se reúnem para poderem conhecê-lO melhor e para virem a entender mais facilmente a Sua providência. Têm fome e sede de justiça. Também têm sede do genuíno leite da Palavra, e não há nada que apreciem mais do que estudar a Palavra e ouvi-la proclamada. Sentem-se fortemente impulsionados a encontrar-se uns com os outros para poderem permutar experiências, para se ajudarem mutuamente a deslindar muitos problemas, e a estimular-se uns aos outros a que prossigam. Todos eles têm a mesma experiência básica, todos eles marcham na mesma direção. Acham, pois, "amável a companhia dos irmãos que fixaram os seus semblantes no rumo daquele país". A igreja é um lugar onde eles narram a "Sua fidelidade aos que se acham no deserto ardente", e onde eles gostam de falar "do fim da jornada". Esta é a descrição que temos no Novo Testamento, o retrato que tem sido visto centenas de vezes desde aquele tempo na vida da Igreja. A Igreja retrata uma coleção de pessoas, das quais se pode dizer: "Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pedro 2:9). Ninguém mais tem direito de ser membro da sociedade.

Posso imaginar alguém fazendo a pergunta: se a Igreja é esse tipo de sociedade, que esperança você pode ter de conseguir que as pessoas entrem? Esses critérios não atraem os homens hoje em dia; não é esse o campo de estudos deles; eles não têm interesse por esse tipo de coisa. Não seria melhor alcançá-los seguindo linhas de interesse comum e em termos das coisas que os atraem naturalmente? A questão não tem nada de novo. E simplesmente a velha questão concernente à autoridade da Igreja.

Alguns procuram autoridade, como vimos, em cerimônias e em ritos religiosos; outros a procuram na tradição, e ainda outros no sacerdócio e no governo especial da Igreja. Alguns acham que a autoridade da Bíblia está em nossa resposta a ela. Não temos tempo de sopesar estas idéias aqui, mas devemos declarar sem temor e com fervor que a Igreja não achará por esses meios a autoridade de que necessita para falar ao mundo e para fazê-lo ouvir. A Palavra é da máxima importância, porém o único poder que confere autoridade é o Espírito Santo. Este é o segredo do estranho sermão que o apóstolo Pedro pregou no dia de Pentecoste, em Jerusalém, e dos incríveis resultados que se seguiram. Paulo fala em termos semelhantes: "A minha palavra, e a minha pregação, não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus" (1 Coríntios 2:4-5). Essa é a história que se vê através das eras e em todos os períodos de avivamento e de despertamento. O mundo não era melhor nem estava mais desejoso de ouvir a mensagem do evangelho no início do século dezoito do que hoje. Não podemos explicar só em termos de homens os eventos que se deram na história da religião em Gales. Todos eles têm uma só explicação - Daniel Rowland, Howell Harris e William Williams de Pantycelyn eram homens que falavam "como tendo autoridade" (Mateus 7:29). A mesma característica está presente com os puritanos, nos pais protestantes, em Savonarola e em todo aquele que foi usado por Deus para revivificar a religião em sua geração. Quando "o elemento vida" vem à Igreja, o mundo começa a ouvir, e o povo se aglomera. Então o problema será, não como conseguir gente para vir ouvir, mas como achar recinto para todos os que vêm. O mundo está ansioso para reconhecer a diferença entre a voz do homem e a voz de Deus, e por fim não se dispõe a ouvir coisa alguma senão a Sua voz.

Portanto, não nos é difícil responder a próxima pergunta: para que somos chamados hoje? E óbvio que devemos concentrar as nossas energias na Igreja, e que a maior necessidade é o avivamento e o despertamento da Igreja. E nela, e muitas vezes por meio de indivíduos pertencentes a ela, que os grandes movimentos espirituais sempre tiveram início. Quando a Igreja age no poder e na força do Espírito Santo, faz mais num dia do que doutro modo faria em anos por meio de todas as suas atividades, sem o Espírito. Finalmente, todos os nosso temores pelo futuro da Igreja e da religião, o nosso sentimento de desesperança ao vermos o mundo afundando cada vez mais no pecado e na vaidade, a nossa inclinação para multiplicar organizações, comitês e movimentos brota da mesma cegueira, a saber, a nossa falta de fé nas operações do Espírito Santo.

Então, que podemos fazer? A primeira coisa é compreender que nunca podemos criar um avivamento; todavia, depois de chegarmos a esse ponto, temos muito para fazer.

Se eu tivesse que expressar tudo isso numa só sentença, eu diria que o que é necessário é que esqueçamos completamente o século dezenove e que façamos um minucioso estudo do princípio do século dezoito. Se fizéssemos isso, aprenderíamos lições muito especiais. Acima de tudo o mais, veríamos que o primeiro passo não é rebaixar, mas sim, elevar o padrão requerido dos membros da Igreja. Devemos recapturar a idéia de que ser membro da Igreja é ser membro do corpo de Cristo, e de que esta é a maior honra que pode vir ao encontro do homem neste mundo. Por meio da disciplina, devemos aclamar a relação de membro da comunidade e devemos tornar a ressaltar a verdade de que Deus dá o Espírito Santo somente "àqueles que lhe obedecem" (Atos 5:32). A necessidade não é de aumentar a atração, mas proclamar que "estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida" (Mateus 7:14). Possivelmente, isto significa que muitos recuarão das igrejas e as abandonarão; e do ponto de vista da estatística, dos relatórios e das coletas, tudo parece sem esperança, e os que procuram manter vivas as igrejas temem. Contudo, igualmente certo, a Palavra do Senhor se cumprirá: "qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará" (Lucas 9:24). Como Paulo em Atenas, há muito tempo, devemos compreender que a nossa obra não consiste em argumentar acerca da verdade, e sim, declará-la e proclamá-la com autoridade. Não devemos somente fazer que o povo venha a ter interesse pela verdade, e apelar apenas para as suas mentes; não é esse o nosso dever, mas, antes, é despertar as suas consciências proclamando o juízo de Deus sobre o pecado e a ira de Deus contra "toda a impiedade e injustiça dos homens" (Romanos 1:18), e exortá-los a fugirem da ira vindoura. Devemos convencer os homens da verdade da extrema importância do lado espiritual da vida, de um mundo eterno e de um destino eterno. Ninguém verá a necessidade que tem do Senhor Jesus Cristo como Salvador, senão a pessoa que se viu a si mesma como perdida diante de Deus; e o único motivo verdadeiro para ter-se uma vida moral e digna é a gratidão a Deus e a percepção de que um dia estaremos diante dEle.

Este é o chamamento dirigido aos religiosos hoje: devemos tomar consciência da nossa indignidade perante Deus, da distância que nos separa dos santos das eras passadas, da nossa terrível dessemelhança dos cristãos do Novo Testamento; depois devemos arrepender-nos e reconsagrar-nos a Deus em Cristo, e devemos assegurar-nos de que a religião regule as nossas vidas. Mais do que qualquer coisa, porém, devemos aperceber-nos de que o estado do mundo é tal, que nada, senão o poder do Espírito Santo pode curá-lo, e a tal ponto devemos sentir isso, que sejamos levados a dobrar os joelhos em oração a Deus, rogando-Lhe que, em Sua misericór¬dia, Ele olhe para nós com piedade e, por Seu grande nome, envie um poderoso avivamento entre nós. Esse é o único meio, essa é a única esperança, porque aos homens é impossível, mas não a Deus, pois "a Deus tudo é possível" (Mateus 19:26).
Fonte: Blog Martyn Lloyd Jones

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