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15 de mai de 2010

Condene o Falso Ensino – Martyn Lloyd-Jones


Note a maneira pela qual o falso ensino é denunciado no Novo Testamento, e a linguagem empregada com relação aos falsos mestres. Observem, em particular, o modo como o nosso Senhor o faz. Pois todo o clima da opinião atual é completamente avesso a isso. Acho divertido notar, nas resenhas de livros, que um ponto quase sempre salientado é se o escritor foi inteiramente positivo ou não. Nunca devemos ser negativos; nunca devemos criticar outros conceitos. Isso é considerado como sub-cristão. O que importa é o espírito. Portanto, jamais devemos criticar, e muito menos denunciar qualquer coisa. Os conceitos totalmente divergentes devem ser considerados como "percepções" valiosas que apontam na direção da verdade.

O fato é que, naturalmente, em nosso errôneo entendimento do Novo Testamento e do seu ensino, estamos exaltando uma espécie de gentileza e polidez, que não há como encontrar ali, nem mesmo no Senhor Jesus Cristo. Vejam, por exemplo, o que Ele diz em Mateus 7:15-27. Diz Ele que há falsos mestres que Ele só pode comparar com "lobos vestidos de ovelhas". Não se pode imaginar castigo mais severo. Ele Se refere a homens que negam a verdade, mas dão a impressão de que a pregam. Ele nos põe de sobreaviso contra eles. São "falsos profetas", "falsos mestres", pessoas que alegam que Lhe pertencem e que dizem: Senhor, Senhor, não temos feito isto, isso e aquilo em Teu nome? Ele responde que eles são mentirosos e que no grande dia do juízo Ele lhes dirá: "Nunca vos conheci"! Jamais Lhe pertenceram. Não se pode imaginar ensino mais forte que esse.



Ou vejam o que Ele ensina em Mateus 24:24-26. Ali Ele emite uma advertência muito importante para os Seus seguidores e para todos os cristãos através dos séculos: "Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: eis que ele está no deserto, não saiais: eis que ele está no interior da casa, não acrediteis". Aqui Ele nos adverte dos mestres falsos e enganosos. Mais uma vez, a linguagem é muito forte.

Em Efésios 4 vemos a mesma coisa. Aí está este grande apóstolo, cheio do espírito de amor e, lembremo-nos, "falando a verdade em amor" (VA); mas, como vimos, a linguagem que ele emprega é, "que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia nos enganam fraudulosamente...". Isso é falar "a verdade em amor". Inclui denunciar esses falsos mestres na Igreja e mostrar claramente que espécie de gente eles são e que espécie de coisas eles fazem. Ele os descreve como animais predatórios que ficam à espera para "enganar". Falar a verdade em amor inclui uma clara exposição do erro e de tudo o que possa ser nocivo aos "bebês em Cristo".

O apóstolo utiliza linguagem ainda mais,forte em seu discurso de despedida dos presbíteros da igreja de Éfeso: "Olhai pois por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto: que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão ao rebanho; e que dentre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós" (Atos 20:28-31). Essa é a linguagem! "Lobos"! "Lobos cruéis"! Em 2 Coríntios 11:13-15 ele os chama de "falsos apóstolos" parecidos com o diabo, que "se transfigura em anjo de luz". Em Gaiatas 1:8 ele diz: "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho... seja anátema", isto é, seja amaldiçoado.

Tudo isso vem sob o título, "falando a verdade em amor". Por que essa linguagem é abominada hoje, e é considerada como sub-cristã? Porque desapareceu a idéia da verdade como algo que se pode definir, e a estamos substituindo por uma flébil e sentimental idéia de unidade e comunhão. Em Filipenses 3:18-19 o apóstolo escreve: "Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas". Essas pessoas estavam na Igreja e se apresentavam como mestres da verdade do evangelho, mas o apóstolo não hesita em denunciá-las como "inimigos da cruz de Cristo". Por quê? Porque estavam negando esta doutrina essencial nalgum ponto.

Devemos falar a verdade em amor acerca dessas pessoas para que os "meninos" na fé sejam protegidos da sua nefanda influência. Os termos empregados com relação a tais pessoas são extraordiná¬rios em sua força e em sua variedade. Ele fala de "filosofias e vãs sutilezas"; "tradição dos homens" (Colossenses 2:8); "clamores vãos e profanos" (1 Timóteo 6:20); palavras que "roem como gangrena (câncer)" (2Timóteo 2:17). O apóstolo Pedro fala em termos igualmente fortes de "fontes sem água" (2 Pedro 2:17). São os que parecem ter algo, porém na realidade não têm nada. O que há em seu evangelho? Qual é o seu conteúdo? Insistem em tagarelar sobre o amor; entretanto, de que amor falam? Onde está a sua salvação? Qual o sentido dos termos que empregam?

Observem também a linguagem usada por Judas. Examinem a linguagem usada nas cartas às igrejas, em Apocalipse, capítulos 2 e 3.0 Novo Testamento fala de pessoas levadas a extraviar-se pela "operação do erro" e de pessoas que acreditam na "mentira" (2 Tessalonicenses 2:11). Nele os falsos profetas são classificados como "cães", como pessoas que ensinam e proferem "heresias de perdição", cujos caminhos são perniciosos, pessoas "mentirosas". Ele se refere ao falso ensino como gangrena, como câncer que corrói os órgãos vitais. Esse é o ensino do Novo Testamento. Tudo isso, no entanto, é abominado hoje em dia, e é considerado como sendo uma completa negação do espírito de amor e de comunhão, de fato uma negação do espírito de Cristo.

Noutras palavras, este ensino moderno sobre a unidade afastou--se tanto do Novo Testamento que qualquer elemento polêmico presente na pregação e no ensino da verdade lhe causa aversão. Como digo, é-nos dito que jamais devemos ser negativos, que sempre devemos ser positivos. O homem admirado é o que diz: não sou polemista, sou simplesmente um pregador do evangelho! Alguns evangelistas e outros crentes conservadores são elogiados por aqueles que são muito liberais em sua teologia porque não "atacam" o liberalismo e o modernismo. É isso que é objeto de admiração. E o elemento polêmico é tido como uma negação do espírito cristão. Nunca devemos criticar; sempre devemos ser bondosos e afáveis. Concordo que sempre devemos ser bondosos e afáveis, que sempre devemos "falar a verdade em amor". Contu¬do, sempre devemos "falar a verdade em amor". Devemos, como o faz o Novo Testamento, "batalhar pela fé". Devemos expor o erro e denunciá-lo, em vez de só querer agradar os homens. O Novo Testamento está repleto desse ensino, como já provei.

Foi isso que se fez no tempo da Reforma. É isso que se faz sempre nos tempos de avivamento e renovação, porque em tais ocasiões há um retorno ao Novo Testamento. O erro é desmasca¬rado, exposto e denunciado. Isso foi feito, igualmente, no tempo dos puritanos. Nestes dias em que a "gentileza", a "atitude amiga" e a "comunhão" são elevadas à posição suprema às custas da verdade, lembremos que a exortação dirigida aos mestres e aos crentes neotestamentários não foi que eles deviam estar prontos a concordar com qualquer coisa por amor da unidade e da comunhão. A exortação dirigida a eles em 1 Coríntios 16:13-14é: "Vigiai, estai firmes na fé: portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos. Todas as vossas coisas sejam feitas com caridade (ou amor)". Devemos ser varonis, devemos ser fortes, devemos permanecer firmes na fé que temos. Devemos saber que temos um alicerce debaixo dos nossos pés, e devemos saber o que ele é. Não devemos cavalgar nuvens; não devemos ficar no ar; devemos "estar firmes" num fundamento sólido, reconhecível, definível. Somos exortados a "batalhar energicamente pela fé" (VA) (Judas 3).

Em 2 João se nos diz que não devemos receber em casa, nem "saudar" a um falso mestre, e que fazê-lo é "ter parte nas suas más obras" (versículos 10-11). Em 2 Tessalonicenses 2:15 o apóstolo utiliza estas palavras: "Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa". Tradições ensinadas verbalmente e por escrito! Algo definível, algo concreto, algo claro, algo que é inconfundível. Isso foi escrito a pessoas como os tessalonicenses, a cristãos novos na fé. E por essa fé temos que batalhar energicamente, com toda as nossa forças, com todo o nosso poder.

Em Ti to 3:10-11 o apóstolo resume tudo de novo numa declaração por demais importante: "Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o. Sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado". Não devemos ser "gentis" e "amistosos" com ele. Se ele persistir em ser um herege depois da primeira e da segunda admoestação, devemos rejeitá-lo. Ele é um perigo para a Igreja, e nós temos que excluí-lo. Esse é o claro e explícito ensino do Novo Testamento, em toda parte. Naturalmente, tudo isso é inteiramente inevitável, em vista da natureza da verdade concernente à salvação, e da natureza da unidade que impera na Igreja. Contudo, isso está muito longe do atual ensino popular que, não somente tolera a doutrina de homens que negam o claro ensino do Novo Testamento concernente à Pessoa e obra do nosso Senhor, mas até os exalta e os elogia como cristãos notáveis, dignos da emulação dos crentes novos.
Fonte: Martyn Lloyd-Jones

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