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20 de jul de 2009

A Tragédia da Vida Desperdiçada - A. W. Tozer


A "ASSOCIATED PRESS" publicou recentemente uma interessante e algo deprimente história
londrina sobre certo magnata britânico que tinha morrido poucos dias antes de completar oitenta e nove anos de idade.

Tendo sido homem de recursos e de posição, é de presumir que não tivera necessidade de trabalhar para viver como os demais seres humanos como nós. Assim, por ocasião da sua morte, ele tivera cerca de setenta anos de vida adulta em que fora livre para fazer o que quisesse, seguir a carreira que desejasse ou trabalhar em qualquer coisa que julgasse digna das suas consideráveis capacidades.

E que resolveu fazer? Bem, de acordo com a narrativa, "dedicou sua vida à tentativa de produzir o rato mosqueado perfeito".

Pois bem, admito que todo homem tem direito de criar ratos mosqueados, se o desejar e conseguir a cooperação dos ratos, e francamente declaro que tal decisão é problema dele, não meu. Não sendo aficionado a ratos (nem inimigo deles, neste sentido; sou simplesmente neutro), não sei sequer em que um rato mosqueado pode ser mais útil e vir a ser um rato de estimação mais afetuoso que um rato da cor do rato comum. Mas continuo em dificuldade.


O criador de ratos em questão era um senhor aristocrático, enquanto eu nasci numa fazenda no montanhoso interior da Pensilvânia, mas, desde que um gato pode mirar um rei, suponho que um rapaz do campo também pode mirar um senhor da alta, e até mirá-lo com desaprovação, se as circunstâncias lho permitirem; assim, não posso senão condoer-me do meu irmão de além-mar.

Criado à imagem de Deus, equipado com formidáveis poderes mentais e espirituais, chamado para ter sonhos imortais e aprofundar-se nos imensos pensamentos da eternidade, ele escolhe como razão da sua existência a criação de um rato mosqueado. Convidado para andar com Deus na Terra e para habitar com os santos e os anjos no mundo das alturas excelsas; chamado para servir à sua geração pela vontade de Deus, para, com santo vigor, ir atrás do alvo pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus, ele dedica a sua vida ao rato mosqueado – não apenas noites e feriados, note bem, mas sua vida inteira. Sem dúvida, esta é uma tragédia digna da mente de um Ésquilo ou de um Shakespeare.

Esperemos que a história não seja verdadeira ou que os repórteres a tenham exagerado, como às vezes fazem; mas, mesmo que a coisa toda seja uma burla, ainda aponta para uma perfeita tragédia humana que está sendo levada ao palco diariamente diante de nossos olhos, não por atores teatrais do faz-de-conta, mas por homens e mulheres reais que são os personagens que eles representam. Deveriam eles estar preocupados com o pecado, a justiça e o juízo; deveriam preparar-se para morrer e reviver; mas, em vez disso, passam os seus dias criando ratos mosqueados.

Se o certo é ter uma visão espiritual do mundo, como o cristianismo afirma destemidamente que é, então, para cada um de nós, o Céu é mais importante que a Terra, e a eternidade é mais importante que o tempo. Se Jesus Cristo é quem ele se arrogava ser; se ele é o que o glorioso colégio apostólico e o nobre exército de mártires declararam que é; se a fé que a santa igreja por todo o mundo subscreve é a verdadeira fé bíblica e cristã, então nenhum homem tem direito de dedicar sua vida a qualquer coisa que possa queimar-se ou enferrujar-se ou apodrecer ou morrer. Nenhum homem tem direito de se dar completamente a ninguém, senão a Cristo, e a nada, senão à oração.

O homem que não sabe onde está, está perdido; o homem que não sabe por que nasceu está mais gravemente perdido; o homem que não consegue achar um objeto digno da sua fiel devoção está completamente perdido; e, segundo esta descrição, a raça humana está perdida – e uma parte da nossa condição de perdidos consiste em que não sabemos quão perdidos estamos. Daí, usamos os poucos e preciosos anos de vida que nos cabem por sorte para criar ratos mosqueados. Não da espécie que foge e guincha, talvez; mas, examinadas à luz da eternidade, as nossas minúsculas atividades humanas, em sua maioria, não são quase igualmente insignificantes?

Uma das glórias do Evangelho cristão é seu poder, não só de libertar do pecado o homem, mas também de orientá-lo, colocá-lo no alto de um pico do qual ele pode ver o ontem e o hoje em sua relação com o amanhã. A verdade limpa a sua mente, de modo que ele pode reconhecer as coisas que de fato importam e ver o tempo e o espaço, reis e repolhos em sua verdadeira perspectiva. O cristão iluminado pelo Espírito não pode ser enganado. Ele sabe o valor das coisas; ele não investe num arco-íris nem faz pagamento à vista por uma miragem; em resumo, ele não devota a sua vida a ratos mosqueados.

Por trás de cada vida desperdiçada, está uma filosofia ruim, uma errônea concepção do valor e do propósito da vida. O homem que acredita que nasceu para conseguir tudo que puder para si passará a vida toda tentando consegui-lo; e o que quer que consiga será apenas uma gaiola de ratos mosqueados. O homem que acredita que foi criado para gozar os prazeres da carne dedicar-se-á à busca de prazer; e se, por uma combinação de circunstâncias favoráveis, ele consegue extrair da vida muita diversão, os seus prazeres acabarão virando cinza em sua boca. Tardiamente verá que Deus o criou com demasiada nobreza para satisfazer-se com aqueles sensacionais, mas falsos prazeres a que devotara a sua vida cá debaixo do sol.

Extraído de: “Homem: Habitação de Deus”, A.W.Tozer, Editora Mundo Cristão.

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